Andar em ponto morto estraga o motor?

Andar em ponto morto estraga o motor?

A placa já indica o início da serra e logo depois outra diz: “Desça engrenado”. Hoje em dia, quase ninguém deve se atentar muito à esse segundo aviso, mas antigamente, nos anos 60, 70, 80 e até parte dos 90, muitos devem ter ignorado o aviso e utilizado a famosa “banguela” para economizar combustível, fosse álcool, gasolina ou diesel. Mas, andar em ponto morto estraga o motor?

Eis uma questão interessante, pois muitos motoristas “das antigas” ainda insistem no uso do ponto morto para reduzir o trabalho do motor e assim também obter uma economia a mais de combustível. Mas, será que hoje em dia, isso ainda é válido? E mais, há risco para o motor? A resposta é não.

Andar em ponto morto estraga o motor?

Com o motor trabalhando em ponto morto e com o deslocamento do veículo, ele não terá seu funcionamento alterado em relação se o carro estiver parado. Em termos de manutenção, nem mesmo o mito de que ajuda na refrigeração não cola nesse caso. O que o proprietário vai acumular é prejuízo, mas de outras formas. Ou seja, estragar o motor não vai, mas ele vai operar de forma irregular.

O termo “irregular” não está relacionado com aspectos mecânicos, já que parado ou andando em ponto morto, o propulsor vai trabalhar na faixa mínima estabelecida em projeto. Ali, ele vai queimar uma determinada quantidade de combustível, independente do que o veículo estiver fazendo. O que acontece é que a ideia de que é vantajoso fazer isso nos dias atuais é puro engano.

Andar em ponto morto estraga o motor?

Então eu não consigo economizar?

Por incrível que pareça, a resposta para a questão seria não. Porém, a mesma tecnologia que responde a pergunta é a que permite ainda hoje se use a “banguela”. Como assim?

Bom, antes de chegarmos a esse nível, que infelizmente só está disponível para poucos atualmente, a grande maioria dos casos o uso da banguela não traz a vantagem de se economizar combustível, como antigamente. No passado, os carros eram todos carburados e os que não tinham esse dispositivo eram logicamente movidos por diesel, com suas bombas injetoras.

Num carro com carburador, seja simples, duplo, triplo ou quadruplo, a injeção da mistura ar-combustível será feita mecanicamente e conforme a rotação aumenta, mais combustível (e ar) são injetados indiretamente no motor, o que obviamente aumentava o consumo.

Assim, o uso do ponto morto como forma de economizar fazia sentido, já que a rotação baixava para seu mínimo de trabalho e naturalmente a injeção de ar-combustível era menor. Então, a placa de “desça engrenado” foi sem dúvida ignorada por muita gente no passado. Mas, e hoje em dia?

Atualmente, andar em ponto morto não traz qualquer benefício em termos de economia de combustível e isso se deve à tecnologia. Não aquela que comentamos no começo desse subtítulo, mas a que está disponível para todos os carros desde meados dos anos 90. Trata-se da injeção eletrônica, seja monoponto, multiponto, sequencial ou direta.

Graças à essa tecnologia, os carros ficaram mais “inteligentes” e o funcionamento do motor, atrelado ao movimento do veículo, passaram a andar lado a lado. Com a computação de bordo, que gerencia o sistema que substituiu os velhos carburadores, o software lê diversos dados passados por vários sensores espalhados pelo veículo.

Nele, o computador sabe se o veículo está rodando ou parado, sua velocidade e se faz esforço ou não para se deslocar. Da mesma forma, monitora o funcionamento do motor. Quando o veículo entra em um declive e a ECU percebe uma resistência deste à descida, imediatamente envia comandos aos sistema para injetar menos combustível, mesmo que a rotação se eleve além da média.

A ECU entende que o motor está trabalhando como um “freio” e assim injetará o mínimo possível, apenas para que o propulsor não desligue. Isso é feito com o veículo logicamente engatado e então se verifica uma ligeira redução no consumo de combustível. Ou seja, com a injeção eletrônica, o ideal é manter o carro engatado e descer usando esse “freio motor”, que também traz o benefício de exigir menos dos freios.

“Roda livre”

Lembra da resposta à primeira questão do subtítulo anterior? Pois bem, desde os anos 90 (e antes disso nos mercados consolidados), andar em ponto morto não traz vantagem alguma. Aliás, traz mesmo é muito risco e penalidade, conforme veremos mais adiante.

Bom, mas a tecnologia de gerenciamento de motor e câmbio evoluiu de tal forma que hoje existem sistemas que permitem uma rodagem livre de engate. Num declive, o computador entende que pode se beneficiar da inércia para economizar gasolina.

Assim, entra em neutro – apesar da posição D no painel – e o motor trabalhar com um mínimo de combustível, menos que no ponto morto. Tudo é monitorado em tempo real e se perceber a necessidade de engatar marchas, o fará, assim como usar freio motor.

Andar em ponto morto estraga o motor?

Riscos e penalidade

Como também já comentamos, andar em ponto morto traz riscos e penalidade. Com o câmbio em neutro, o carro não tem resistência do conjunto motriz e alcançará velocidades muito elevadas para que o sistema de freios possa ser usado com segurança. Isso aumenta enormemente o risco de acidentes.

O uso do câmbio engrenado ajuda na função de freio motor, fazendo com que o propulsor e a própria transmissão auxiliem na redução de velocidade e assim permitam ao condutor ter maior controle sobre o veículo em declives, independente de ser um carro leve ou uma carreta carregada.

Na banguela, o condutor não terá o mesmo poder de redução e frenagem normais, sobreaquecendo discos e pastilhas, o que apenas contribui para perda de eficiência e uma colisão inevitável. Além disso, dependendo da marcha que o condutor engate numa reação de emergência com o veículo em movimento, haverá um choque enorme no sistema de embreagem e no próprio propulsor, não só prejudicando o consumo, como também contribuindo para uma vida útil menor de peças e componentes.

É por conta disso que, ao ser flagrado, o condutor sofrerá penalidade. No artigo 231, IX do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) a infração é média para “Transitar com veículo desligado ou desengatado em declive”, cuja multa é de R$ 130,16. Mas e a tal tecnologia? Como dissemos, o sistema está ativado em tempo integral e elimina o risco de acidente.

Fonte: Notícias Automotivas